Qualidade das mudas faz a diferença

Entrevista com Daniela da Silva Pereira, Esalq/USP

A engenheira florestal da Esalq/USP, Daniela da Silva Pereira, explica que a qualidade das mudas é um fator importante para a restauração dos biomas. Segundo a cientista, para que as florestas de espécies arbóreas nativas possam alcançar um acúmulo satisfatório de biomassa, o processo deve ser cuidadoso. “É necessário identificar as deficiências nas atividades silviculturais que podem afetar o desenvolvimento da floresta. Entre os fatores que influenciam diretamente em seu arranque inicial estão a qualidade das mudas implantadas e práticas silviculturais intensivas nos dois primeiros anos ou até o fechamento das copas”, avalia.

Segundo a engenheira florestal, em seus estudos ela observou uma alta mortalidade nas mudas implantadas em áreas degradadas. “Foi aí que surgiu a ideia de buscar respostas para solucionar alguns problemas neste tipo de plantio”, conta. O campo de estudo foi o reservatório de Borborema, que armazena água para uma usina hidrelétrica da região.

Confira abaixo a entrevista exclusiva concedida pela pesquisadora ao Canal – Jornal da Bioenergia:

Qual foi a motivação da pesquisa sobre qualidade de mudas na restauração florestal de matas ciliares?

Em virtude da alta mortalidade em reflorestamentos que têm como objetivo a restauração de áreas degradadas, surgiu a ideia de buscar respostas em um estudo. O objetivo era solucionar alguns problemas nesse tipo de plantio de árvores. As respostas do experimento foram capazes de mostrar quais os pontos chaves para diminuir a alta mortalidade e diminuir, também, os estresses ambientais que atrapalham o desenvolvimento das plantas em campo.

A pesquisa foi realizada no reservatório de Borborema, em São Paulo. Por que esse lugar foi escolhido?

Essa cidade possui um reservatório de água para a usina hidroelétrica de Promissão. Tanto o reservatório quanto a usina pertencem à empresa AES-Tietê, que subsidiou a pesquisa e disponibilizou a área na margem de seu reservatório. Além disso, esse local tem áreas com drenagens diferentes de solo.

Que etapas e cuidados são necessários para manter um nível de excelência na restauração de florestas?

A qualidade de mudas demonstrou ser um ponto que deve receber maior atenção. Muitas espécies que classificamos como secundárias tardias, climax ou mesmo chamadas de final de sucessão ecológica demonstraram maior necessidade em uma muda com maior biomassa (maior quantidade de folhas, maior altura, maior diâmetro do colo e maior densidade de raízes).

Então é preciso plantar mudas mais desenvolvidas?

As mudas nativas são produzidas em tubetes de 56 cm3. Quando a muda é produzida em um tubete com maior volume de substrato, que é dado em tubetes de 290 cm3, ou mesmo em tubetes de 120 cm3 ou 150 cm3, isso já proporciona um tamanho de muda maior, garantindo que os fatores que interferem na biomassa sejam alcançados.

Que outros aspectos também são determinantes para que essas mudas “peguem”?

O estresse ambiental é o responsável por altíssima mortalidade nesse tipo de reflorestamento. Para eliminá-lo, práticas silviculturais são extremamente necessárias desde a atividade de plantio até todas as manutenções florestais, enquanto as plantas ainda apresentarem dificuldade de se desenvolverem nesse ambiente. O experimento demonstrou que o controle de mato-competição é o fator que mais colabora para o melhor desenvolvimento das mudas em qualquer tipo de área. A fertilização vem em segundo lugar, como fator limitante para o desenvolvimento das mudas.

Na sua avaliação, existe contradição entre a expansão da atividade agropecuária e a prática de reflorestamento?

A expansão agropecuária pode ocorrer se ela não desmatar florestas nativas e substituí-las por culturas agrícolas. Existem muitas áreas de pastagens abandonadas que podem ser remanejadas para outras culturas agrícolas. Aplicando o manejo correto no solo, é possível cultivar inúmeras culturas agrícolas, mesmo que esse solo tenha sofrido degradação com as pastagens mal manejadas. Porém, quando a expansão agrícola está relacionada com o desmatamento de florestas nativas, com certeza é uma contradição a questão da conservação.

Qual é a função do governo nesse processo?

Ele deveria colaborar com os produtores rurais, auxiliando nos recursos para as atividades de reflorestamento em suas fazendas. Além disso, deveria fornecer mais informações sobre os benefícios da floresta e mesmo sobre os produtos florestais não madeireiros que poderiam auxiliar na renda familiar desse produtores. Enquanto os produtores rurais tiverem a visão de que a APP e a reserva legal são áreas que não tem função nenhuma e que só servem para dar prejuízo, dificilmente essas áreas serão reflorestadas devidamente.

Entrevista: Daniela da Silva Pereira, Esalq/USP.
Fonte: Canal – Jornal da Bioenergia

(Foto de Mudas  de Araçá, cultivadas na Flora Tietê)